Chamada para a submissão de trabalhos: Chamada para a submissão de trabalhos: Chamada de Artigos para o Dossiê: "As múltiplas facetas da alimentação na história"

A revista  "História e Cultura" abre sua chamada de submissões para o dossiê "As múltiplas facetas da alimentação na história", organizado pelo Profa. Ma. Elisielly Falasqui da Silva (Doutoranda em História – IFCH – Unicamp) e Prof. Me. Gabriel Ferreira Gurian (Doutorando em História e Cultura Social – FCHS-UNESP Franca).

Prazo maximo para submissão: 01 de setembro de 2020
 


AS MÚLTIPLAS FACETAS DA ALIMENTAÇÃO NA HISTÓRIA

Nas últimas duas décadas, é notável no Brasil o crescente interesse historiográfico pela alimentação. Desde que as reflexões em torno das estruturas do cotidiano vieram à pauta em meio aos debates entre as Ciências Sociais ao longo das décadas de 1960, 70 e 80, as práticas ligadas ao comer têm captado a atenção dos historiadores no Ocidente, tendência que passou a ser observada com mais clareza nas universidades brasileiras a partir do final dos anos 90. O extenso balanço historiográfico elaborado por Ulpiano Bezerra de Meneses e Henrique Soares Carneiro, intitulado “A História da Alimentação: balizas historiográficas”,[1] e o ensaio-manifesto de Carlos Roberto Antunes dos Santos, “Por uma história da alimentação”,[2] editados em 1997, são textos importantes para esse contexto. Catalisados por essas publicações e por obras estrangeiras que passaram a ganhar traduções no Brasil – a exemplo de História da alimentação,[3] pujante coletânea organizada pelo francês Jean-Louis Flandrin e pelo italiano Massimo Montanari, lançada em 1996 e editada por aqui dois anos depois –, os historiadores do país vêm, desde então, privilegiando cada vez mais a alimentação como objeto caro ao conhecimento histórico.

As reflexões nacionais sobre as práticas de comer e beber, contudo, não são de todo recentes, haja visto que alguns dos mais célebres pensadores do século passado, nomeadamente Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Luís da Câmara Cascudo, dedicaram, ainda que com perspectivas e sistematicidades variadas, notas aos hábitos e cardápios de nossos antepassados, em meio às preocupações partilhadas por seus contemporâneos no que dizia respeito à identidade e à formação brasileiras. Para pensar uma sociedade estruturada, desde os tempos coloniais, a partir da presença e do intercâmbio cultural entre indivíduos de diferentes origens e etnias, ponderações sobre práticas alimentares observadas em escala regional, perpassando ingredientes, preparos e pratos específicos, ou mesmo em um recorte mais amplo, mapeando o impacto dessas trocas no que tenta-se enquadrar como cozinha nacional, foram e ainda são caminhos de pesquisa muito importantes, prismas esses que não se restringem a processos observados no Brasil. Afinal, como pontuam Flandrin e Montanari, histórias da alimentação, ou seja, narrativas memoriais que em muito constroem o que se entende sobre alimentos e elementos constitutivos de traços, comportamentos e repertórios culturais, são, de maneira geral, parte da cultura de base de todos,[4] das quais também é possível derivar outras elucubrações sobre grupos e sociedades que partilham dessas histórias. Todavia, não obstante as contribuições passadas e o destaque contemporâneo do qual tem gozado, o campo dos estudos sobre a alimentação ainda se encontra em expansão, tanto dentro quanto fora do Brasil.

Na esteira dessa difusão de pesquisas, o leque de percepções e análises do que significa ou com quais fins se alimentar nas sociedades do passado tem se ampliado cada vez mais, atentando-se a múltiplos recortes temporais e espaciais. A pluralidade de qualidades e aplicações de muitos alimentos, que permite que sejam empregados de variadas maneiras, no nutrimento, no restauro da saúde, no deleite do corpo e da mente, nos sacramentos do espírito, é um dos aspectos levantados. O pão e o vinho, por exemplo, bases alimentares da Europa mediterrânea, por séculos tiveram papeis importantes nos cuidados com o corpo, do sustento ao equilíbrio dos humores, e também gozaram de reputação dual, sagrada, no contexto cristão da eucaristia e da transubstanciação dos alimentos no corpo e no sangue de Cristo, e profana, associados aos excessos dionisíacos, à perda dos juízos e à glutonaria. A vastidão dos predicados da alimentação, assim como das possíveis questões derivadas dessa multiplicidade de práticas em torno do comer e beber – as diversas concepções, relações e cuidados com o corpo ao longo dos séculos, as disposições materiais condicionantes das estruturas e práticas cotidianas de determinadas sociedades – são algumas das principais facetas dessa expansão dos food studies no Ocidente.

Se retornarmos à História da alimentação de Jean-Louis Flandrin e Massimo Montanari, obra que serve como valioso termômetro do panorama de estudos em meados da década de 90, estabelecendo importantes balizas e suscitando novos questionamentos, veremos que a questão que os aflige e motiva na organização do livro é justamente o diagnóstico da inexistência de uma História formal, acadêmica e sistemática sobre a alimentação. Buscam, assim, expor e propor “maneiras mais úteis para nos nortear no presente e, de resto, mais de acordo com a orientação atual da pesquisa histórica, uma vez que, em todos os domínios, a história já não se ocupa das façanhas dos grandes homens, especialmente quando se trata das estruturas do cotidiano, às quais pertencem os hábitos alimentares dos povos”. Desde o período que precedeu a publicação da obra, é bastante claro para muitos historiadores que “os mais insignificantes acontecimentos da vida cotidiana têm algo de necessário e um sentido muito preciso”, que se alimentar é uma necessidade natural, mas que abarca práticas e técnicas profusamente permeadas de aspectos culturais,[5] escancarando, assim, a obsolescência da ideia de que o cotidiano não tem história.[6] Passadas duas décadas desde as inquietações de Flandrin e Montanari, o estabelecimento de uma História nos moldes que almejavam é discutível, mas o panorama de investigações é fértil e continua a crescer, com destaque para o caráter multifacetado da alimentação e as complexidades sociais e culturais inferidas a partir daí. Desse modo, o presente dossiê tem como objetivo a reunião de trabalhos fruto de pesquisas recentes ou em andamento, nacionais ou estrangeiros, dedicados a questões que elucidem a multiplicidade de contextos e lugares sociais da alimentação na história humana, seja sustentar, restaurar, motivar, curar, celebrar, deleitar, ou sacralizar o corpo, a mente e o espírito. Enfim, estudos que explorem variados predicados e significados associados às práticas alimentares.



[1] MENEZES, Ulpiano de; CARNEIRO, Henrique. A História da Alimentação: balizas historiográficas. Anais do Museu Paulista, v. 5, jan/dez 1997, pp. 9-91.

[2] SANTOS, Carlos Roberto Antunes dos. Por uma história da alimentação. História: Questões e Debates, Curitiba, v. 26/27, n. 1/2, 1997, pp. 154-171.

[3] FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo (org.). História da Alimentação. São Paulo: Estação Liberdade, 1998.

[4] FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo. op. cit., 1998, p. 15.

[5] ROSSI, Paolo. Comer: necessidade, desejo, obsessão. 1ª edição. São Paulo: Editora Unesp, 2014, pp. 29-33.

[6] FLANDRIN, Jean-Louis; MONTANARI, Massimo. op. cit., 1998, p. 16.

Os artigos devem ser encaminhados exclusivamente através do site da revista: https://periodicos.franca.unesp.br/index.p…/historiaecultura



 

Cordialmente, 

Editores da Revista História e Cultura