Chamada de Artigos para o Dossiê "Historiografia em tempos de urgência: Do horizonte de expectativas ao fechamento das esperanças"

2020-10-03

O prazo para submissão de trabalhos foi estendido até 8 de fevereiro de 2021 (segunda-feira.)

Chamada para o Dossiê nº 1 (Vol. 10, 2021)

Prezados autores, 

A revista História e Cultura, em conjunto com os organizadores Profa. Ma. Alice F. Freyesleben (UFPR) e Prof. Me. Luiz Alexandre Pinheiro Kosteczka (UFPR), convidada a todos os membros da comunidade acadêmica a enviarem suas contribuições para o dossiê "Historiografia em tempos de urgência: Do horizonte de expectativas ao fechamento das esperanças". 

Os textos devem ser encaminhados pelo sistema da resvista e seguir nossas Diretrizes para Autores.


As propostas devem ser encaminhadas até 08/02/2021. (PRAZO ESTENDIDO)

 

Atenciosamente,

Organizadores e Revista História e Cultura

 

Resumo sobre a proposta: 


Historiografia em tempos de urgência: Do horizonte de expectativas ao fechamento das esperanças

Quando Marc Bloch afirmou a estranha dimensão da ciência histórica – sua ausência de objeto, posto que seu objeto, o passado, não é –, além de ter deixado a pergunta sobre como no presente seria possível indagar-se sobre esse não ser, marcou o passo de uma demanda que naqueles mesmos anos, numa dimensão da urgência, também Walter Benjamin se colocava: a articulação histórica do passado implica, por parte do historiador, um gesto político no presente. Nos rastros desses pensadores da urgência, a historiografia dos últimos setenta anos é marcada pela tensão entre uma leitura a contrapelo da história e a abertura de sentidos históricos para o presente e, também, voltados ao futuro.

 Colocando-se no vórtice dessa tensão, Reinhart Koselleck (1999, 2006, 2014) indica que são os esforços de reorganização de experiências vividas que dão forma ao passado. A partir da operação dialética, entre presente e as conformações de passado, emerge o horizonte de expectativas para futuros possíveis. Esse estudo modelar, denominado por Koselleck como semântica dos tempos históricos, contribuiu para a reflexão sobre os referenciais que constituem o presente, o passado e o futuro e a consequente, desnaturalização desses termos.

Na esteira dessas reflexões, François Hartog (2013) nomeou regime de historicidade a maneira como determinada sociedade trata e alinha suas noções de passado e, consequentemente, de futuro.  O autor elenca os três tipos de regimes de historicidade que definiram as relações entre tempo e história na constituição da assim chamada sociedade ocidental: um, voltado à experiência do passado como principal ferramenta de instrução e orientação (a história e a noção ciceroniana de magistra vitae); outro, inaugurado com a modernidade, caracterizado pela aceleração das transformações do passado, o qual assume lugar diminuto em um presente estreito voltado profundamente para um amplo horizonte de futuro (a história e a noção de progresso); e, por fim, o regime chamado pelo autor de presentismo – definido como um dilema histórico inaugurado por uma crise na ordem do tempo, a qual reivindica o passado como uma instância fixa e patrimonializada e não como experiência construtiva, e, simultaneamente, também encerra os prognósticos de futuro, revelado como uma ameaça.

Tendo em vista essa crise na ordem do tempo, desde aquilo que se coloca sob a imprecisa categoria de contemporaneidade – e cuja noção basilar, o contemporâneo, também deve ser questionada (AGAMBEN, 2009) –, fluiríamos em uma espécie de fratura temporal cuja intensificação se dá em um crescendo: do pós-Guerra aos movimentos contestatórios do final da década de 1960, dos enfrentamentos dos sistemas coloniais à derrocada do modelo estatal de socialismo no final da década de 1980 e claramente aprofundado pelo triunfo da lógica neoliberal, da decadência da crença no estado de bem estar-social ao consenso científico acerca do esgotamento dos ecossistemas e da irreversibilidade do aquecimento global. Além disso, com a expansão, agora de aparência irrefreável, da racionalidade neoliberal, nesta segunda década do século XXI a intensificação da fratura teria atingido seu ponto de não-retorno. Como afirma Franco Berardi (2019), no atual contexto de semiocapitalismo, o presente se adensa de tal maneira que toda forma de experiência se torna incapaz de ser projetada para fora dele, uma vez que “para projetar profundidade temporal, a mente precisa dispor os objetos mentais em perspectiva, elaborar sua relação, a sucessão, a potencialidade” (BERARDI, 2019, p. 109) – e a quantidade de estímulos informativos, sobretudo no meio virtual, impede essa elaboração. O passado é, com isso, imobilizado, sendo celebrado ou lamentado pela ferramenta afetiva da memória – em detrimento da operação crítica e ética da história –, o presente se imobiliza em seu caminho não para o abismo, mas que é o próprio abismo (GROS, 2019), e “o futuro torna-se inimaginável” (BERARDI, 2019, p. 109).

Diante disso, este dossiê pretende reunir textos que promovam reflexões sobre urgências do fazer historiográfico em meio à crise na ordem do tempo, a partir de eixos temáticos, como:

- Desafios da historiografia ao lidar com a difusão e popularização da consciência sobre o colapso ambiental iminente.

- Relações entre a intensificação da lógica neoliberal e os processos de subjetivação.

-  Problemas relacionados à longa duração e ao short-termism (visão de curto prazo) nas pesquisas históricas.

- A credibilidade dos saberes científicos, os negacionismos e as fake news como objetos da ciência histórica.

- Os desafios da historiografia frente às dinâmicas das tecnologias digitais e algorítmicas (seleção de fontes documentais, construção de modelos interpretativos, desmaterialização dos arquivos, etc).