Chamada para a submissão de trabalhos: Chamada de Artigos para o Dossiê: “A produção dos saberes em língua portuguesa”.


Organizadoras:

Milena da Silveira Pereira

Pós-doutoranda (PNDP/CAPES) no PPG-História da UNESP/Franca

Michelle Souza e Silva

Doutora em História e Cultura Social (UNESP/Franca)

 

Proposta do Dossiê

A relação entre a história e os diversos saberes e práticas científicas produzidos em cada época tem se tornado cada vez mais foco da atenção do historiador contemporâneo. Pensar os saberes científicos não apenas como meio de expressão da experiência humana, mas como objeto incontornável para entendermos a própria historicidade das formas de conhecimento e construção do passado, só se tornou possível a partir de uma redefinição dos rumos do conhecimento histórico. Este redimensionamento ampliou as possibilidades de se contar o passado e abriu o caminho para novas abordagens. Assim, o presente dossiê A produção dos saberes em língua portuguesa pretende reunir trabalhos que explorem essa relação entre o mundo e os saberes e práticas científicas produzidos em língua portuguesa que visem a interrogar como diferentes épocas registraram suas realidades.

Desde os séculos XI e XII, momento em que os saberes ganham um espaço institucional habitado por mestres ou pares, a preocupação com a definição de arte e ciência passa a ser matéria corrente para aqueles homens que se propuseram a registrar o passado, ou melhor, a construção de novos parâmetros definidores dos domínios teóricos e práticos das diversas matérias torna-se peça-chave para pensar a produção do conhecimento. As ciências, nessa altura, fixaram-se ligadas ao conhecimento de caráter especulativo, que partia da crença na racionalidade e constância divina para deduzir as leis que regulavam a experiência terrena. Do mesmo modo, as artes foram concebidas como sinônimo de bem fazer, ou melhor, relacionadas à noção de execução de uma técnica, de uma ação que, em conformidade com a natureza, gerava ou restabelecia a harmonia dos corpos. Muito embora tais noções tenham sido retomadas da antiguidade, estas concepções de ciência e arte foram redefinidas em um ambiente outro, já que todo e qualquer conhecimento na Idade Média era proveniente de Deus, um Deus que os antigos desconheciam. É significativo dizer, inclusive, que a apropriação e difusão das noções de arte e ciência, apesar de não serem percebidas como uma unidade, estiveram no cerne da proposta dos letrados, ligados, por vezes, aos “estudos gerais”, de pensar a natureza dos saberes, suas relações, oposições e seu grau de participação na busca da verdade.

Tal binômio, até o século XVIII, parece não ter tido suas fronteiras recortadas com nitidez, malgrado o saber científico tenha buscado se afirmar sobre novos parâmetros no Setecentos, ao deslocar do centro da análise a figura de Deus, especialmente com Kant na virada do século – que estabeleceu, grosso modo, a morte epistemológica de Deus e a ascensão do homem como sujeito do conhecimento. O Dicionário da Língua Portugueza, de Morais Silva, de 1789, por exemplo, trazia a seguinte definição de ciência e arte: a primeira seria o “conhecimento certo e evidente das cousas por suas causas; v.g., a geometria é uma ciência”; e a segunda seria a “coleção de regras, ou métodos de fazer: v.g., a arte de falar corretamente; a arte de ourivesaria, da carpintaria”, podendo ser tomada como sinônimo de artífice e artista. Pouco antes, M. D`Alembert, no Discurso Preliminar da Enciclopédia, afirmava que “a especulação e a prática constituíam a principal diferença que distinguia as ciências das artes”, ou seja, os saberes práticos estavam relacionados à arte e os saberes teóricos à ciência.

Desse modo, se a distinção entre arte e ciência só se dará com mais precisão no século XIX, um questionamento levantado nesse dossiê temático relaciona-se aos meios de determinar os saberes tidos como científicos numa dada sociedade, isto é, como definir as áreas ou matérias constituintes da construção do saber desde a Idade Média, quando as universidades são criadas, até o século XVIII, quando, então, cada campo do saber passa a se preocupar em delinear com mais precisão as suas fronteiras. Uma pista para discutir essa problemática talvez esteja na afirmação de Michel Foucault de que “o saber não é a ciência no deslocamento sucessivo de suas estruturas internas, é o campo de sua história efetiva”, ou seja, uma das principais preocupações desta temática apresentada é pensar a contingência dos saberes e práticas científicas. A proposta deste dossiê, portanto, é reunir textos que tratem diferentes registros e modos de produção dos saberes científicos, ou com pretensão a científicos, bem como interrogar o peso que tiveram na organização do passado.

 

Data-limite para submissão de artigos:

31 de maio de 2018