Chamada de artigos para o Dossiê "As verdades da ficção"

Organizadores

Prof. Dr. Leandro Thomaz de Almeida (Pós-Doutorando, IEL/Unicamp)

Prof. Dr. Rodrigo Soares de Cerqueira (Pós-Doutorando, Sociologia/USP)

Proposta do dossiê

Os debates em torno da teoria historiográfica já não se dão mais com a mesma animosidade dos anos 1970 e 1980. À época, não deixou de causar estranheza, para dizer o mínimo, a tese de que o conhecimento produzido pela história estaria fadado às mesmas limitações que as de uma obra ficcional, uma vez que ambas seriam, antes de tudo, construções linguísticas. O que poderia ser um rebaixamento da história, agora desprovida da validade que o acesso aos fatos do passado lhe dava, era em igual medida um impulso para as letras, cujo vocabulário crítico ganhava um alcance maior do que as limitações do próprio campo (sátira, metáfora, ironia, tragédia etc. podiam ser usados para além dos estudos literários).

Algumas publicações recentes mostram que a abordagem da relação entre escrita histórica e escrita literária não saiu de cena, mas ganhou contornos distintos. No que concerne à história e à literatura, os exemplos oferecidos por um historiador e um crítico literário servirão para introduzir a questão que este dossiê pretende abordar. Pensamos aqui em Stimmungen lesen, de Hans Ulrich Gumbrecht, de 2011 (cujo título em inglês, do qual nos valemos, é Atmosphere, mood, stimmung. On a hidden potential of literature, 2012), e The practical past, de Hayden White, publicado em 2014. Ambos unem debates sobre os alcances da literatura e a abordagem de obras específicas, trazendo à tona pelos menos dois elementos para o qual gostaríamos de chamar a atenção.

O primeiro deles advém da leitura proposta por White do romance de W. G. Sebald, Austerlitz. O historiador afirma que, como qualquer romance, Austerlitz se vale de uma elaboração e de técnicas próprias do artefato literário e é por meio delas que a obra é usada “para dar acesso ao real, a um ‘referente histórico’”.1 Assim, o “dispositivo” poético mobilizado por Sebald no romance “serve para produzir uma lente literária pela qual justificar um julgamento (de aspecto ético ou moral) sobre um mundo real de fatos históricos.”2 O que se vê aqui é a explicitação de um papel conferido à literatura: ela não somente dá acesso ao real como oferece um julgamento sobre ele.

Gumbrecht, por sua vez, propõe uma “terceira posição” para uma dicotomia que teria marcado – e prejudicado – a abordagem da literatura, levando a certa estagnação desse campo de estudos. Ele a denomina Stimmung, termo com o qual pretende desviar a atenção do paradigma da representação que estaria na base tanto da Desconstrução quanto dos Estudos Culturais. Embora dois polos distintos na Teoria Literária (o primeiro, negando; o segundo enfatizando o caráter representacional da literatura), ambos compartilham desse mesmo elemento subjacente. A abordagem de Gumbrecht abre a possibilidade para se pensar a literatura como acesso a diferentes Stimmungen (humores, climas, sentimentos), proporcionados por diferentes obras em diferentes condições históricas. Características formais estariam relacionadas a configurações sociais com o propósito de despertar certos sentimentos (Stimmungen): a picaresca seiscentista ofereceria a experiência da tensão entre religião popular e ortodoxia no período; a ambientação e o protagonista de O sobrinho de Rameau nos colocaria diante da brutalidade dos anos que precederam a Revolução Francesa; Memorial de Aires nos conduziria ao sentimento de melancolia que teria conformado os últimos anos do Império no Brasil. Em suma, “em diferentes dimensões e por meio de diferentes elementos textuais, essas obras levam leitores a encontrar realidades passadas.” 3

Tais exemplos apresentam o problema que este dossiê se propõe a abordar. Levando em consideração a ideia de “acesso ao real”, a possibilidade de julgamento sobre ele e a noção de encontro com realidades passadas a partir dos elementos literários mobilizados pelas obras de ficção, a questão que se pretende explorar é a dos possíveis conhecimentos proporcionados pela literatura. Busca-se, assim, discutir a diferença entre a recriação ficcional ou historiográfica de certos episódios do passado (em especial os traumáticos), além da capacidade da ficção de complementar ou rivalizar com a narrativa historiográfica.

As contribuições para este dossiê são provenientes de professores e pesquisadores na área de letras e história, que abordam o tema proposto a partir de seus respectivos interesses de pesquisa. Não se estabelece nesta proposta um recorte temporal específico e se entende que o tema pode ser abordado tanto por meio de uma discussão teórica stricto sensu (como, por exemplo, as reflexões das professoras Margaret Cohen e Judith Lyon-Caen), quanto pelo exame de obras específicas.

Notas
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1 WHITE, Hayden. The Practical Past. Evanston, IL: Northwestern University Press, 2014, p. 5
2 Id., Ibidem.
3 GUMBRECHT, Hans Ulrich. Atmosphere, Mood, Stimmung: On a Hidden Potential of Literature. Stanford, CA: Stanford University Press, 2012, p. 14.

Data-limite para submissão de artigos

01/05/2016